Home

Biografia

Lia de Itamaracá

Salve, salve Lia de Itamaracá! Mulher, negra, guerreira, merendeira e pop star

Matilde Maria da Conceição não era mulher de perder uma boa ginga de coco de roda; onde houvesse batuque na Ilha de Itamaracá lá estava ela sacudindo o corpo e esbanjando alegria e satisfação em meio a outros brincantes. Talvez Matilde não tenha sequer imaginado que o seu apreço pela cultura popular marcaria profundamente a alma e a vida de um dos seus rebentos a p o n t o d e tr a n s f o r m á -l o e m u m í c o n e d a c u l t u r a n a c i o n a l b r a s i l e ir a . Não era só o folguedo coco que chegava a então paradisíaca ilha do litoral norte pernambucano. Muito provavelmente constituída por um mestre de maracatu de baque solto chamado Antônio Baracho, na década de 1950, tendo por inspiração as muito conhecidas cirandinhas infantis, disseminadas em todo o país – quem é que nunca cantou ou escutou os versos “Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar”? -, a ciranda como roda de adultos foi pouco a pouco ganhando espaço no já amplo e múltiplo universo cultural de Pernambuco e se espalhou por diversas cidades a partir de Abreu e Lima, onde Mestre Baracho fixou morada depois de deixar a sua Nazaré da Mata natal. Ainda nos anos 50 a ciranda aportou em Itamaracá; e ali encantou uma menina espevitada que, tendo herdado o gosto de sua mãe pelas manifestações culturais, se agarrou à ciranda e nunca mais se separou dela, fundiram-se uma na outra, se amalgamaram em um só corpo e espírito, se dizendo quase que sinônimos. Maria Madalena Correia do Nascimento, nascida na Ilha de Itamaracá em 12 de janeiro de 1944, era ainda adolescente quando passou a frequentar rodas de ciranda e tomar gosto pela brincadeira. Negra, de altura elevada para a pouca idade que tinha,Maria Madalena chamava bastante atenção por onde passava; e não demorou para que adquirisse alguma evidência no mundo marcadamente masculino da cultura popular. Conciliando o labor de empregada doméstica – tendo de ajudar a mãe a criar os filhos, cedo ela começou a trabalhar e logo largou a escola – com suas aspirações artísticas, a cirandeira em algum momento assumiu a persona de Lia de Itamaracá – esse é o mesmo nome da personagem da mais famosa ciranda brasileira, “Quem me deu foi Lia”, que, embora tenha sido registrada por Mestre Baracho, Lia diz que é a autora da melodia; nessa história inconclusa entra também a cantora Teca Calazans, que a gravou em 1967 – e, desde então, sua fama foi se espalhando primeiro pelas terras pernambucanas e, depois, pelos quatro cantos do país – bem é verdade que, enquanto não a viam pessoalmente, todos só pensavam que Lia era somente um mito do folclore nordestino, que apenas existia naquela composição. Numa época em que os órgãos de fomento do turismo promoviam a divulgação da ciranda realizando festivais em vários municípios, Lia chegou a gravar um lp intitulado Lia de Itamaracá – A rainha da ciranda, que foi lançado em 1977. Com o fim desses eventos, tanto ela como os demais cirandeiros mais conhecidos, como João da Guabiraba, João Limoeiro e o próprio Baracho foram caindo no esquecimento e sendo pouco chamados para apresentações. Por esse tempo, em meados dos anos 80, Lia começou a percorrer uma jornada rumo ao fundo do poço, como ela mesma costuma dizer, desiludida com a falta de prestígio e reconhecimento artístico e financeiro. Durante certo período, ainda nos anos 70, a artista marcou duplo expediente no Bar e Restaurante Sargaço, localizado no bairro de Jaguaribe, próximo à sua morada: de dia comandava a cozinha, preparando alguns dos quitutes que faziam o sucesso da casa; à noite, ela se transformava em diva, cantando e comandando a sua ciranda. Mas mesmo isso não era o suficiente para prover Lia de suas necessidades mais comezinhas; e em razão desse estado de coisas, ela recorreu a um influente político e conseguiu um emprego de merendeira, profissão da qual se orgulha muitíssimo de ter exercido e pela qual veio a se aposentar. De algum modo era como merendeira, envolvida com dezenas de crianças, que Lia vivenciava a experiência da maternidade, uma vez que nenhum dos seus filhos vingou. A participação de Lia de Itamaracá no festival Abril Pro Rock de 1998, em plena www.liadeitamaraca.com.br efervescência do Movimento Mangue Beat, foi uma espécie de estopim para a sua recondução ao trono de rainha da ciranda e para toda a consagração que estava por vir. Fechando o século XX, no ano 2000 foi lançado, aqui e na França, o cd Eu sou Lia. A agenda de shows ganhou outros contornos, levando-a a excursionar pela Europa e percorrer grande parte do Brasil por conta de ações como o Projeto Pixinguinha e Sonora Brasil. Em 2004 ela foi a Brasília a fim de ser agraciada com a medalha da Ordem do Mérito Cultural; e, já no ano seguinte, foi definida por lei estadual como Patrimônio Vivo de Pernambuco, um mais que justo reconhecimento a toda a sua trajetória de luta para manter e levar adiante a cultura popular através de sua notável ciranda. No ano de 2008 Lia lançou o cd Ciranda de ritmos, mostrando novamente todo o poder de sua voz encantadora. Poucos anos antes ela trouxe para junto de si, a fim de acompanhá-la nas apresentações, duas filhas do Mestre Baracho, Severina e Dulce, cirandeiras muito talentosas e bastante zelosas do legado artístico do pai. A todo tempo celebrando uma negritude cuja ancestralidade africana materna é do povo Djola, da Guiné-Bissau, como atestou recentemente um exame de DNA, Lia de Itamaracá deixa ver em suas vestes e adereços, em suas evocações de santos católicos e orixás e sobretudo em sua postura de luta e resistência, marca dos seus antepassados que foram trazidos para este país como escravos e cujos descendentes ainda hoje sofrem discriminações de diversos matizes, o tanto que ela tem consciência de que é um símbolo e exemplo de que, mesmo sendo mulher e negra numa sociedade que permanece muito preconceituosa e machista, conseguiu superar um sem-número de obstáculos e ser reconhecida como uma grande estrela da cultura brasileira.